Índio da Costa: ‘Vou usar o modelo do Uber para a saúde’

Índio da Costa: ‘Vou usar o modelo do Uber para a saúde’

Candidato do PSD promete enxugar secretarias da prefeitura para 7 ‘macrofunções’             

RIO – Disposto a reestruturar toda a administração pública, com o uso intensivo de tecnologia, Índio da Costa (PSD) diz que vai fazer o governo “dos sonhos da esquerda”, com participação direta do cidadão na sua gestão. Sustenta que chamará o usuário para definir as novas linhas de ônibus e se disse em dúvida sobre armar a Guarda Municipal.

Índio da Costa durante entrevista ao GLOBO - ANTONIO SCORZA / Agência O Globo
Índio da Costa durante entrevista ao GLOBO – ANTONIO SCORZA / Agência O Globo

O senhor tem feito críticas à prefeitura, ao PMDB no Rio e também à ex-presidente Dilma. Mas fez parte, como secretário, de governos do PMDB, e seu partido, o PSD, foi da base aliada de Dilma.

Eu fui a primeira pessoa a largar o mandato de deputado federal para lutar contra esse jogo do PT. Fui candidato a vice-presidente do Brasil numa chapa de oposição para fazer contraponto. Sabia que era muito difícil ganhar aquela eleição, mas para mim era muito importante mostrar as mazelas do PT. Tudo o que eu disse na campanha eleitoral está comprovado agora. Não tenho nenhuma dificuldade em fazer críticas ao PT. E aqui no Rio de Janeiro fui o primeiro político com mandato, deputado federal, a subir no carro de som em Copacabana para defender o impeachment. Em nenhum momento, escondi (essa posição) do Kassab, de nenhum membro do meu partido, nem do próprio governo. Não tenho nenhum cargo indicado no governo do PT.

O senhor concorre à prefeitura com a proposta de reorganizar as contas públicas. Como pretende ajustá-las e, ao mesmo tempo, melhorar os serviços e investir?

Antes de fazer qualquer investimento novo, a ideia é que as escolas tenham professores, que os hospitais tenham médicos, que as pessoas sejam atendidas com qualidade. Não estou prometendo a construção de nenhuma nova unidade enquanto as atuais não estiverem funcionando. Há um enorme gasto da prefeitura com empresas terceirizadas e com Organizações Sociais (OSs). Nas Organizações Sociais, acho que há um inchaço de custeio desnecessário. A primeira coisa é dar transparência a elas. Eventualmente, cabos eleitorais vão ter que ir embora, e se diminui o custo daquela Organização Social. Havia, em 2006, 111 categorias funcionais da prefeitura sem função ou até que já estavam extintas. Já não temos mais essas categorias em lugar nenhum; por exemplo, datilógrafo. Dá para fazer um trabalho especialíssimo na prefeitura nesse momento em que a crise é uma grande oportunidade para uma gestão eficiente. Essa gestão passa por você redesenhar o funcionamento da prefeitura. Com 18 mil pessoas na prefeitura sem função, basta você integrar essas funções em categorias mais amplas.

Mudar de função é legal?

Não é mudar de função. Eu apresentei uma PEC, e essa semana fui ao presidente Michel Temer entregar um documento no qual peço que ele me ajude a aprovar essa proposta de emenda constitucional em que você autoriza o concurso interno no poder público. Você vai pegar pessoas que entraram 20 anos atrás com primeiro grau e hoje em dia já têm faculdade, inclusive doutorado e mestrado, e você pode reaproveitá-las numa atividade melhor do poder público. O inchaço do poder público é diretamente proporcional a essa regra, em que você tem a estabilidade. Eu duvido que a Justiça vá questionar e dizer que uma medida austera de economia de gasto, em um momento em que tem uma crise alucinada no país, não pode acontecer.

O senhor falou em eficiência. Existe projeto para diminuir o número de secretarias?

Vou organizar a prefeitura em sete macrofunções. Elas reúnem funções, podem estar em secretarias ou não. Hoje são 67 unidades de primeiro escalão no governo Eduardo Paes, e eu vou trabalhar com sete, mas sem deixar de prestar nenhum serviço que é prestado. Vou criar uma secretaria de segurança pública. É uma questão gerencial. Essa é minha especialidade. Faço política há 25 anos, estou no meu quinto mandato. É uma maneira de você pensar integrado.

Nesse agrupamento em macrofunções, não se corre o risco de deixar algumas áreas em segundo plano?

Pelo contrário. Corre o risco de ser muito mais rápida a entrega daquilo que o cidadão demanda e precisa. Se você pegar a licença de obra, você tem que ter a participação das secretarias de Urbanismo, de Obras, Meio Ambiente, da Rio-Águas, Rioluz. Você tem que desburocratizar, redesenhar o plano de obras. Você tem que ir desburocratizando, assim atende muito melhor e com rapidez.

O senhor tem apostado na própria trajetória política ao longo da campanha. Mas vivemos um momento no qual a população está descrente dos políticos de modo geral. Como trabalhar esta ideia de politico experiente neste cenário?

Um político tradicional não seria relator da Lei da Ficha Limpa e não teria apresentado as dez medidas contra a corrupção em dezembro do ano passado, quando corria o risco de a Mesa Diretora, presidida por Eduardo Cunha, enterrar as dez medidas e ficar com uma só. Isso é absolutamente contra o sistema. Na minha opinião, a melhor forma de você mudar a política é dentro dela e não criticando-a. Foi por isso que entrei. Não sou filho de político, ou neto de político. Você não joga bola com um sujeito que não entenda de futebol. O que as pessoas estão querendo não é alguém de fora da política. O que estão querendo, na minha opinião, é alguém experiente, que tenha trajetória. Não sou um candidato fabricado, igual é o Pinóquio, o Pedro Paulo.

O senhor é a favor ou contra armar a Guarda Municipal?

A prefeitura, de acordo com a lei, pode fazer muito mais do que está sendo feito. Não existe nenhuma política pública que vá funcionar bem sem a segurança. A saúde tem dificuldade pela falta de segurança. A educação tem dificuldade. Basta rodar as escolas e ver quantas têm que interromper aula por conta do tiroteio. Armar a Guarda será uma consequência de requalificá-la, trabalhar com informação, tecnologia e inteligência, integrá-la à Polícia Civil e à Militar. Não sou técnico de segurança. O que vou fazer num primeiro momento é qualificar a Guarda, prepará-la.

Mas a tecnologia tem um custo. E a questão da receita?

É baratíssimo. A receita da prefeitura é enorme. Tem hoje um enorme desperdício de dinheiro público. O que o Eduardo está fazendo com as OSs é criminoso. O que se gasta com as Organizações Sociais é algo jamais visto, do ponto de vista do desperdício. Só ai você tem uma economia brutal.

Há obras ainda não concluídas na cidade. O senhor as terminará?

Claro. Vou concluir as obras que o Eduardo parou porque faltou dinheiro. Naquelas que ele fez, vou ter manutenção. Haverá total continuidade de tudo o que já foi feito. Reconheço, inclusive, que tem obras que são muito boas para a cidade, sobretudo o Porto Maravilha. Ao mesmo tempo, ele empurra a cidade na direção da Barra da Tijuca. Tem que tomar um pouco de cuidado. 40 mil pessoas a mais morando ao lado do Autódromo de Jacarepaguá; isso pode ser um tiro. Imagina o trânsito do jeito que já está, cheio de problemas. Tem que pensar isso de maneira mais ampla.

Qual a sua posição sobre o Uber?

Sou favorável à legalização. Vou usar, inclusive, o modelo do Uber para a saúde, a habitação, a segurança, o transporte. O usuário vai me dizer qual é a dificuldade que ele tem. Eu vou poder redesenhar com liberdade e autonomia, sem depender do empresário de ônibus. Eu vou redesenhar o modelo a partir da necessidade do usuário. Hoje a gente tem oportunidade de fazer, e eu vou fazer, o que as esquerdas sonharam para o Brasil e não conseguiram, que é um governo verdadeiramente participativo. Naquela época, a participação era de pequenos grupos e só quem era ligado à política participava.

Como seria este modelo?

Tem um programa que é chamado Doutor Já. O conceito foi inventado pelo Jeff Bezos, criador da Amazon. Esse sistema informatiza todo o processo. Então quando você vai agendar o médico, escolhe qual é o profissional, (analisa) a experiência dele, a especialidade, o currículo, o resultado que deu por cada uma das coisas. Ele atende atrasado? Você vai como o Uber, dando nota. A ideia é fazer um acompanhamento das etapas de cada serviço. O próprio usuário, o carioca, vai dizer: o médico nunca atende na hora, o outro nunca aparece para trabalhar, eu levo tantos meses para fazer os exames. Se você tiver três milhões de pessoas na cidade dando informação, tem uma tela gerencial enorme no gabinete do prefeito e do secretário de Saúde. Você vai descobrindo todos os buracos e problemas existentes para ir resolvendo.

Quanto custa esta proposta?

É de graça praticamente. Você tem o sistema feito, o Doutor Já, um sistema de atendimento. Em vez de ter a atendente, que custa caro, você troca pelo sistema informatizado. Vai ter algum custo? Tem, mas vai ser muito mais barato do que o hoje.

Em quanto tempo o senhor conseguiria implantar esse sistema?

Acredito que no primeiro ano de governo conseguiria implantá-lo.

Como solucionar esses nós no transporte da cidade?

Ouvindo as pessoas, entendendo as reais necessidades delas e repensando o uso do solo. Você aproximando o trabalho da casa, a casa do trabalho. Já é autorizado legalmente ter moradia no Centro da cidade; tem que induzir as pessoas a isso. E vice-versa: também levar atividades econômicas e emprego para pontos em que eles não existem.

E a reorganização das linhas de ônibus?

Vou fazer isso com o usuário. Quem entende a maior necessidade de transporte é o próprio usuário. Não é o empresário de ônibus, que está atrás do lucro, muito menos o político, que não é quem está usando o transporte.

Fonte: O Globo 19/09/2016

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One comment

  • Fernando Pedrosa

    By Fernando Pedrosa

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    Saudações futuro Prefeito.
    Sou especialista em transporte e Segurança no trânsito e integrei o gabinete do seu vice, Deputado Hugo Leal, como servidor de nível superior do MT cedido até fevereiro desse ano, quando decidi me aposentar e tentar uma carreira solo como pequeno empresário.
    Fiquei bastante impressionado com sua entrevista e com algumas idéias inéditas, audaciosas e que podem funcionar muito bem.
    Nessa linha deixo aqui duas sugestões.
    A primeira delas é que dê muita atenção às ações do trânsito na cidade. No passado, no governo Luiz Paulo Conde, houve até a criação uma Secretaria Municipal de Trânsito que foi extinta pelo sucessor. Muitas prefeituras menos importante as tem. Incluindo Niterói. Porque o Rio não?
    A outra diz respeito à normatização do serviço de transporte do UBER. A grande ( e legítima) discussão diz respeito ao controle municipal e a tributação a que os taxistas estão sujeitos e os motoristas do UBER não. A plataforma diz que não é empresa de transporte e apenas viabiliza a tecnologia para que proprietários de carros usem seus veículos nesse transporte.
    Pois bem, a solução portanto passa pela regularização desse transporte e dos proprietários dos carros cadastrados na plataforma.
    Minha sugestão (uma vez já superficialmente comentada com Hugo Leal) é de registrar esses proprietários de veículos no Simples Nacional como prestadores de serviço (MEI) de LOCAÇÃO DE AUTOMÓVEL COM MOTORISTA. A exemplo do que fazem as locadoras, mas com duas diferenças específicas. A exigência de um ÚNICO AUTOMÓVEL e locação com motorista obrigatória.
    Com isso, eles passam a pagar tributos e a prefeitura pode fazer um registro específico dos veículos nessa categoria a exemplo do que já existe no DENATRAN com o RENAVAM.

    Fernando Pedrosa

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