Anestesiar não é a solução

Anestesiar não é a solução

Mesmo sem ser especialista, eu estava convencido que a ocupação pura e simples traria problemas.            

Tenho agora como secretário de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação a oportunidade de mudar uma situação ruim gerada pela prefeitura anterior do Rio de Janeiro, que não soube cumprir seu papel no conceito das Unidades de Polícia Pacificadora. Há a possibilidade urbanizar as comunidades e trabalhar na legalização dos imóveis (o que já aconteceu em Fernão Cardim, no Engenho de Dentro, e no bairro Barcelos, na Rocinha), além de melhorar serviços básicos, como escola e atendimento médico.

As UPPs foram criadas e implantadas apenas como uma anestesia nas comunidades (pelas palavras do ex-secretário de Segurança, José Beltrame), mas a cirurgia nunca aconteceu. Com a ausência de conflitos, os governos estadual e municipal finalmente teriam acesso a áreas antes dominadas pelo crime. Surgia a possibilidade de levar a urbanização às favelas e entrar com todo o arsenal de possibilidades de serviços e intervenções públicas. Imagine se tudo isso fosse feito no momento em que entraram as UPPs. Com certeza o quadro seria bem diferente do atual.

Primeiro morro a ser beneficiado com uma UPP no Rio de Janeiro, em 2008, o Dona Marta é o exemplo mais emblemático. A unidade era considerada modelo pelo Governo Estadual.

Na última quarta-feira, policiais da UPP de Santa Marta e traficantes trocaram tiros durante 10 minutos dentro da comunidade, isso por volta das 7h, quando há grande movimento de moradores se deslocando para o trabalho e alunos para as escolas. O pânico foi instalado.

Ontem, cinco comunidades (Complexo do Alemão, Pavão Pavãozinho, Fallet-Fogueteiro, Vila Kennedy e Cidade de Deus) registraram tiroteios entre PMs e traficantes só no período da manhã. Todas contam com UPPs.

A criação das UPPs fez surgir esperança de dias melhores no Rio. O projeto dizia que a polícia ocuparia os espaços dominados pelo crime para que a prefeitura, com políticas públicas consistentes, revertesse as expectativas. Assim, dariam às pessoas de bem a chance de ficarem livres no crime na porta de suas casas.

Contudo, as UPPs entraram e lá ficaram sozinhas. O projeto ficou restrito às ações policiais da Polícia Militar e já se sabia a que lugar isso nos levaria.

As estatísticas nos ajudam a entender a situação. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública, nos últimos cinco anos, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial aumentou 120%, e já volta a se aproximar do registrado antes do surgimento das UPPs. Foram 920 mortes só em 2016.

O número de policiais mortos em serviço também cresceu e alcançou sua maior marca nos últimos dez anos. Foram 40 em 2016, contra 26 em 2015 e 18 no ano anterior. Segundo o noticiário, até o fim de fevereiro deste ano, 23 PMs já morreram.

Mesmo sem ser especialista, eu estava convencido que a ocupação pura e simples traria problemas. Por isso, quando estava na Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, em 2013, propus ao ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, que aplicássemos políticas públicas capazes de aproveitar o esforço de reduzir o crime. Apresentei um programa, mas ele não me permitiu tirar do papel.

Em 2015, consegui que o PSD nacional financiasse estudos sobre o papel das prefeituras na Segurança Pública. O Centro de Liderança Pública coordenou o trabalho e fez duas apresentações do resultado final, uma no Rio e outra em São Paulo. Aqui no Rio, aconteceu no ano passado, na Casa do Saber, em Ipanema, e eu estive presente. Levantei as questões sobre a falência das UPPs.

Sei que o desafio é ambicioso, mas eu a atual prefeitura do Rio de Janeiro vamos fazer o que está ao nosso alcance para mudar essa realidade.

Crédito imagem: André Teixeira/ Agência O Globo.

One comment

  • Fernando Nascimento

    By Fernando Nascimento

    Reply

    Realmente o apoio da prefeitura é fundamental, mas mesmo sem esse apoio a UPP Santa Marta ainda é uma das exceções, lá, com o envolvimento pessoal da Comandante Tenente Tatiana Lima, se desenvolvem ações em conjunto com a comunidade e o seu entorno visando a interação e promoção social de crianças e adolescentes. Nós do Instituto Lotta recebemos por várias vezes jovens daquela comunidade acompanhados pelos policiais da UPP, em perfeita harmonia, para participarem em atividades de lazer ativo no Parque do Flamengo.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *
You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>