Multa ou assalto?

Multa ou assalto?

Foi publicada ontem no Diário Oficial do Estado uma lei que proíbe radares de velocidade, os famosos “pardais”, em áreas de risco do Rio. O projeto reflete a angústia do deputado estadual Dionísio Lins, que é a mesma da sociedade fluminense: o alto índice de violência nas vias urbanas. O cidadão vive um impasse. Se reduzir a velocidade, é assaltado. Se acelerar, é multado. É a prática cotidiana do ditado popular “Se ficar, o bicho pega. Se correr, o bicho come”.

A violência está espalhada por todo o estado. É só acompanhar o noticiário para perceber isso.

Ontem, em Santa Cruz, Zona Oeste, uma mãe levava o filho de quatro anos ao hospital quando foi abordada por dois bandidos. Os criminosos levaram o veículo com a criança presa na cadeirinha. Felizmente, o caso não terminou em tragédia. Neste fim de semana, na Tijuca, na Zona Norte, o neto do Zagallo foi assaltado e baleado quando deixava um amigo em casa. Perto dali, um roubo de carro, ontem, terminou com troca de tiros entre polícia e bandidos e um passageiro de ônibus atingido por uma bala perdida no Elevado Paulo de Frontin.

No início do mês, vimos traficantes incendiarem ônibus na Avenida Brasil e na rodovia Washington Luiz, duas vias expressas de acesso à cidade do Rio, com grande movimento. Em março, a Ponte Rio-Niterói parou com o sequestro de um ônibus. No início desta semana, no bairro do Jockey, em Campos, um homem foi baleado no rosto, dentro do carro. São incontáveis casos em todo estado.

Ora, até o apartamento do governador, no Leblon, foi invadido e roubado. A realidade é que o Governo do Estado perdeu completamente a capacidade de garantir a segurança da população. E como não apresenta uma solução definitiva, ficamos todos a buscar paliativos.

É legítimo o medo que o motorista tem de reduzir a velocidade nos pardais, mas a verdade é que a proposta vai contra todas as medidas adotadas para reduzir acidentes de trânsito. Dados do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte mostram que a implantação da fiscalização eletrônica em rodovias federais e em trechos de vias urbanas contribuiu para a redução de aproximadamente 70% dos acidentes.

Se seguirmos esta linha de raciocínio, daqui a pouco, vão sugerir que não tenhamos mais Lei Seca em áreas de risco.

Não é assim, com medidas paliativas, que vamos resolver o problema de violência no Rio de Janeiro. O que o governo precisa é dedicar tempo, dinheiro e atenção qualificada à questão da segurança pública. Deve-se investir em equipamento e na capacitação de policiais. Minha proposta é que se crie um plano de ação fundamentado no serviço de inteligência, em que se converse e aprenda com quem entende do assunto – o que não implica apenas em consultar especialistas, já que a população em geral sabe melhor do que ninguém o risco que corre.

Outra medida fundamental é retomar o desenho inicial do projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, como foi proposto pelo ex-secretário de Segurança José Mariano Beltrame. Ou seja, ocupar áreas controladas por tráfico ou milícia, para que se crie oportunidade de uma verdadeira transformação social. Levar cidadania, assistência social e saúde a pessoas que vivem em comunidades e interromper a influência do crime sobre os jovens.

Veja como o quadro é grave. A maior arma contra o crime é a educação. Só que a violência impede as crianças de frequentarem as escolas. Segundo o levantamento da Secretaria Municipal de Educação, por consequência dos confrontos e operações policiais, neste ano, a rede municipal funcionou integralmente em apenas seis dias letivos. Só hoje, mais de 5 mil alunos do município foram afetados por ações policiais na Cidade de Deus e Praça Seca.

Apenas com a implantação de uma política de segurança pública séria, que resolva o problema da violência pelas causas e não pelas consequências, o motorista fluminense um dia não terá mais que decidir se prefere ser multado ou assaltado.

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