Saúde ferida a tiros

Saúde ferida a tiros

Deve existir um meio de livrar o Rio dos confrontos armados entre policiais e bandidos      

Os confrontos armados entre policiais e bandidos acontecem há tanto tempo no Rio de Janeiro que a sociedade e os governos adotam mecanismos para conviver com eles. Um deles justifica a matéria publicada pelo jornal O Globo de hoje.

“Em dez meses, violência fechou um terço das clínicas e dos postos do município…Os confrontos registrados no Rio de Janeiro ferem gravemente os serviços de 232 unidades básicas de saúde. De janeiro a outubro deste ano, 77 delas, ou um terço do total (33,2%) fecharam em algum momento devido a tiroteios…E o prejuízo não é apenas para o bem-estar da população: como houve 380 paralisações no período e o custo médio de cada unidade é de R$ 32 mil por dia, a estimativa é que a insegurança tenha provocado perdas de cerca de R$ 12,1 milhões…”.

Os dados e outros tantos publicados na matéria (disponível abaixo) são do programa “Acesso Mais Seguro”, da prefeitura do Rio, que fixa regras de como devem proceder os profissionais que trabalham nas unidades de saúde do Rio, na ocasião dos confrontos armados. As condições de segurança são representadas por cores expostas nas unidades.

No mesmo momento que o programa demonstra o cuidado da prefeitura com os profissionais da saúde e com a própria população, representa a lamentável resignação de todos com uma situação crítica de violência e crime.  Deve existir um meio de livrar o Rio de Janeiro dos confrontos armados entre policiais e bandidos. As medidas de ocasião, aplicadas após ou durante as ocorrências, não têm dado resultado. Pelo contrário: geram prejuízos, tiram vidas de policiais e de gente indefesa de todas as idades e danificam as finanças tanto do governo como das empresas e iniciativas privadas.

Eu permaneço na defesa de metas que alcancem o médio e o longo prazo. A primeira seria o desarmamento: estrangular o sistema que fornece armas aos bandidos. As UPPs perderam a oportunidade de serem mais ativas nesse sentido. E, nesse ponto, seria fundamental, envolver o Ministério da Defesa. As armas têm registro e é medida primordial rastrear o caminho delas da produção ao momento da apreensão, para investigar e punir quem trafica. Isso poderia ser feito por uma Força-Tarefa, que envolvesse o Ministério da Defesa, o Ministério Público, a Polícia Federal e outros órgãos.

Para o longo prazo, a educação, com o conceito amplo de ensino integrado no horário integral, que dê aos alunos desde a primeira infância, acesso ao esporte, à cultura e ao lazer sadio, enquanto ensina.

Foto: Divulgaçao/Ricardo Cassiano/Prefeitura do Rio

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/em-dez-meses-violencia-fechou-um-terco-das-clinicas-dos-postos-de-saude-do-rio-20668742#ixzz4TIg3n7y0

Como se pode educar quem não frequenta as escolas?

Como se pode educar quem não frequenta as escolas?

Tudo no Brasil conspira contra a Educação. No Rio de Janeiro, então, nem se fala

Érica Fraga, colunista da Folha de S.Paulo, comenta e compara os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, e do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), aplicado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ela demonstra que “continua sendo difícil convencer os adolescentes de que vale a pena persistir e permanecer na escola”.

A base do argumento é a evasão de 1,3 milhão de jovens na faixa de idade de 15 a 17 anos das escolas no ano passado. Seis em cada 10 adolescentes desistiram ainda no ensino fundamental. Também pudera! Tudo no Brasil conspira contra a Educação. No Rio de Janeiro, então, nem se fala. Quando se trata das escolas públicas, pior ainda.

As estruturas das escolas públicas são péssimas. Não há conforto para os alunos, então, menos ainda para os professores e demais profissionais, mesmo nas raras exceções que servem à publicidade oficial.

Além disso, há escolas em áreas conflagradas, que ficam por dias, semanas e algumas vezes, meses inteiros sem funcionar por imposição dos bandidos ou dos confrontos deles com a polícia. Nestes locais, os professores são submetidos às mesmas condições sob nível de tensão maior, porque, além de temerem pelas próprias vidas, cuidam da segurança dos alunos.

O fato cria disparidades grandes entre o desempenho dos alunos, a depender das áreas em que residem. A indisciplina não tem limites, porque, como não é agradável aprender, os alunos ficam saturados, com paciência esgotada.

Enfim, como tudo conspira contra a educação, o Pisa mostra que alunos que deveriam estar no início do ensino médio estão, ainda, no fundamental. Não têm conhecimento básico em matemática, português e ciência, o que, na prática, significa não conseguirem interpretar textos básicos e efetuar cálculos elementares, situação que a OCDE identifica como limitadora do exercício pleno da cidadania.

Há, portanto, uma vasta rede de medidas a adotar no Rio de Janeiro se quisermos dar aos jovens e adolescentes chances de uma qualidade melhor de vida no futuro. O começo se dá no ensino na primeira idade (creches) e no ensino fundamental, ocasião em que a criança aprende a gostar de estudar.

Como está comprovado pelo PNAD: filhos de pais com nível maior de formação entendem melhor a importância do ensino para alcançar chances maiores no mercado de trabalho. Ou seja: alunos melhores hoje serão pais melhores amanhã de uma geração mais qualificada.

As medidas de reversão das expectativas devem ter como objetivo, traçado com metas e cronogramas, melhorar a condição de ensino nas creches e escolas, valorizar a carreira dos professores com promoção por mérito, que envolva o aprimoramento profissional e a formação com mais qualidade dos diretores e gestores escolares.

É urgente estabelecer no Rio de Janeiro um conjunto de ações e investimentos fundamentais para motivar os alunos a permanecerem nas escolas por gostarem de aprender. E os professores, pela paixão de ensinar e ver que os seus alunos, de fato, aprenderam.

Foto: Marcia Costa / Agência O Globo

Primeiro passo para o ensino integral

Primeiro passo para o ensino integral

Defendo escola em período integral com a inserção de atividades extracurriculares             

Durante muito tempo ainda, vou me deparar com assuntos que serviram à construção da proposta de trabalho que apresentei na minha campanha para a prefeitura do Rio. Vejam, agora, a notícia do evento no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico, no último fim de semana.

Apresentaram-se a orquestra formada por 40 jovens, com idades entre 13 e 18 anos, moradores da Maré, e o Coral Princesas de Petrópolis. Quem compareceu me disse que foi um espetáculo e tanto.

Produto de um magnífico trabalho cultural do maestro Carlos Eduardo Prazeres, o projeto Estrada Cultural, ensina música clássica a crianças e jovens do Complexo da Maré. Pelo menos 1.500 alunos participam, com direito a bolsa de estudos de um salário mínimo. Muitos do ensino fundamental das escolas públicas da comunidade. A prefeitura do Rio apoia o projeto.

Durante a campanha, esteve em pauta a obrigação da prefeitura de estender o ensino integral.  A tese fundamental foi o tempo de permanência dos alunos nas escolas. Eu levantei a questão que julgo mais importante: com que atividades os alunos ocupam o tempo? E defendi que a Secretaria de Educação inserisse no conjunto de atividades a cultura, o esporte e as noções básicas de cidadania e aptidões profissionais.

O projeto Estrada Cultural é exemplo do que se pode fazer durante o tempo dos alunos nas escolas. A prefeitura poderia estender a iniciativa para todas as escolas públicas de ensino fundamental. Será um passo importante para ter todas as escolas com ensino integral.

 

Foto: Maurício Peixoto / O Globo