Como se pode educar quem não frequenta as escolas?

Como se pode educar quem não frequenta as escolas?

Tudo no Brasil conspira contra a Educação. No Rio de Janeiro, então, nem se fala

Érica Fraga, colunista da Folha de S.Paulo, comenta e compara os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, e do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), aplicado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ela demonstra que “continua sendo difícil convencer os adolescentes de que vale a pena persistir e permanecer na escola”.

A base do argumento é a evasão de 1,3 milhão de jovens na faixa de idade de 15 a 17 anos das escolas no ano passado. Seis em cada 10 adolescentes desistiram ainda no ensino fundamental. Também pudera! Tudo no Brasil conspira contra a Educação. No Rio de Janeiro, então, nem se fala. Quando se trata das escolas públicas, pior ainda.

As estruturas das escolas públicas são péssimas. Não há conforto para os alunos, então, menos ainda para os professores e demais profissionais, mesmo nas raras exceções que servem à publicidade oficial.

Além disso, há escolas em áreas conflagradas, que ficam por dias, semanas e algumas vezes, meses inteiros sem funcionar por imposição dos bandidos ou dos confrontos deles com a polícia. Nestes locais, os professores são submetidos às mesmas condições sob nível de tensão maior, porque, além de temerem pelas próprias vidas, cuidam da segurança dos alunos.

O fato cria disparidades grandes entre o desempenho dos alunos, a depender das áreas em que residem. A indisciplina não tem limites, porque, como não é agradável aprender, os alunos ficam saturados, com paciência esgotada.

Enfim, como tudo conspira contra a educação, o Pisa mostra que alunos que deveriam estar no início do ensino médio estão, ainda, no fundamental. Não têm conhecimento básico em matemática, português e ciência, o que, na prática, significa não conseguirem interpretar textos básicos e efetuar cálculos elementares, situação que a OCDE identifica como limitadora do exercício pleno da cidadania.

Há, portanto, uma vasta rede de medidas a adotar no Rio de Janeiro se quisermos dar aos jovens e adolescentes chances de uma qualidade melhor de vida no futuro. O começo se dá no ensino na primeira idade (creches) e no ensino fundamental, ocasião em que a criança aprende a gostar de estudar.

Como está comprovado pelo PNAD: filhos de pais com nível maior de formação entendem melhor a importância do ensino para alcançar chances maiores no mercado de trabalho. Ou seja: alunos melhores hoje serão pais melhores amanhã de uma geração mais qualificada.

As medidas de reversão das expectativas devem ter como objetivo, traçado com metas e cronogramas, melhorar a condição de ensino nas creches e escolas, valorizar a carreira dos professores com promoção por mérito, que envolva o aprimoramento profissional e a formação com mais qualidade dos diretores e gestores escolares.

É urgente estabelecer no Rio de Janeiro um conjunto de ações e investimentos fundamentais para motivar os alunos a permanecerem nas escolas por gostarem de aprender. E os professores, pela paixão de ensinar e ver que os seus alunos, de fato, aprenderam.

Foto: Marcia Costa / Agência O Globo

Apesar de cruel, 2016 fez diferença

Apesar de cruel, 2016 fez diferença

Em meio a tantas notícias ruins deste ano, o prêmio “Faz Diferença” reconhece belas histórias

Fiquei orgulhoso hoje quando li O Globo. Em meio a tantas notícias ruins em 2016, entre crise econômica, casos de corrupção e tragédias que destruíram famílias, tivemos também exemplos que nos emocionaram e nos encheram de esperança no coração. Estou falando do tradicional e importante prêmio “Faz Diferença”, promovido pelo jornal, que escolherá histórias e as personalidades de um ano tão difícil e cruel para os brasileiros.

A menina Ana Júlia concorre na categoria País. Vítima da burocracia e do descaso, ela conseguiu, enfim, fazer um transplante para ganhar um coração novo. Em junho, a Força Aérea Brasileira passou a reservar um avião só para transportar órgãos. Isso só foi possível após denúncias de que aeronaves da FAB deixavam de fazer este tipo de serviço para serem usadas por autoridades. A garotinha, de apenas 8 anos, ganhou vida nova e futuro.

O que dizer de Rafaela Silva, uma das candidatas em Esportes? A judoca e moradora da Cidade de Deus, comunidade tão sofrida pela violência, emocionou o Brasil ao conquistar o primeiro ouro do país nos Jogos Olímpicos do Rio. Cidade esta onde vive e trabalha o empresário Maurício da Conceição, que concorre ao prêmio na categoria Rio. Ele flagrou assaltos da janela de seu escritório, postou mais de mil vídeos no Facebook e inspirou a implantação do projeto Operação Centro Presente.

Quanto orgulho!

Com Maurício, disputa Lorrayne Isidoro, aluna do colégio Pedro II. A estudante conquistou a única vaga para representar o Brasil na 16ª Olimpíada Internacional de Neurociência. Para viajar, a jovem teve de conseguir dinheiro e que o passaporte ficasse pronto a tempo. Na categoria Educação, concorre a história da Escola Municipal Friedenreich, no Maracanã. A unidade quase foi demolida para dar lugar a obras da Copa do Mundo. O colégio não só se manteve de pé como obteve, em 2016, o maior Ideb entre os colégios públicos do Rio no início do ensino fundamental.

Quanto orgulho!

Há indicações ainda para Cinema, Teatro, Ciência e Saúde, Sustentabilidade, Economia, Desenvolvimento do Rio, Mundo, Música, Artes Visuais, Prosa, Ela, Televisão e Revista. 2016 está acabando. Novos horizontes para 2017!

Foto:  Agência o Globo

Educação precisa ser prioridade

Educação precisa ser prioridade

A carreira de professor precisa ser valorizada para fazer justiça a sua atividade             

Certamente, ninguém discorda que a educação deve ser a prioridade no rol de políticas públicas, pela influência que tem sobre todas elas. Um povo com bom nível de educação tem menos problemas com a saúde. Uma juventude com excelente nível de educação não fica refém do crime e assim por diante. Mas como se identifica a prioridade? Eu entendo que tudo se inicia com a atenção que se dá aos professores, com investimentos em formação e qualidade de vida dos profissionais do ensino. Esses pontos eu tenho defendido sempre e na campanha para prefeito do Rio fiz isso com veemência.

Por isso, chama a minha atenção o ranking mundial em educação, publicado recentemente. O Brasil caiu no ranking mundial em educação em ciências, leitura e matemática. Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), divulgados hoje, mostram uma queda de pontuação nas três áreas avaliadas. O Brasil ficou na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª colocação em matemática. Cingapura lidera em todas as matérias, pela prioridade que deu à Educação.

A causa apontada por especialistas pelo baixo desempenho do Brasil na Pisa 2015 é a dificuldade de proporcionar uma melhor formação para os professores.

A dificuldade de uma melhor formação tem a responsabilidade dos governos, mas também o obstáculo dos salários, que dificultam o investimento dos professores na própria formação. E nesse ponto, sobressai a reportagem do jornal O Globo sobre os aumentos salariais concedidos aos servidores públicos pelo Governo do Estado. O menor percentual de aumento foi dado aos professores, num absoluto contraste com os aumentos concedidos para os profissionais de Segurança Pública. Ao longo dos governos Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, dez categorias, de um total de 62, tiveram reajustes salariais superiores à inflação do período, que ficou em cerca de 81%, pelo IPCA-E. Observe a diferença: policias civis (185%), delegados (114%), policiais militares (165%), bombeiros (165%) e agentes penitenciários (139%).

E os professores? Apenas 33,49% de reajuste salarial!

Quem sabe se com mais investimentos em educação não seria possível menos gastos com a Segurança Pública. Mais escolas e menos presídios?

Foto: G1