Passeio fatal

Passeio fatal

É preciso combater o tráfico e o comércio livre de armas para os bandidos              

Até quando seguiremos sem dar solução a uma situação absurda, que, no Rio de Janeiro, se tornou banal?

Roberto e Rino, dois turistas italianos, motociclistas, foram abordados por traficantes em Santa Teresa, na entrada do Morro dos Prazeres. Roberto foi assassinado e Rino ficou como refém dos assassinos durante duas horas sem saber se seria morto também. O chefe do tráfico decidiu deixá-lo com vida, porque é assim que a coisa acontece na cidade. Os bandidos têm o poder de deixar e de não deixar viver.

O fato sem outros detalhes já seria um absurdo. Mas ocorreu às 11 horas da manhã, no bairro de Santa Teresa, uma das áreas de maior movimento de turistas no Rio de Janeiro e recebeu de um dos mais experientes estudiosos do crime, o sociólogo Ignácio Cano, a seguinte observação: “É um fato triste, mas, que, infelizmente, não surpreende quem conhece a cidade…”.

É verdade. Não surpreende. Não causa mais espanto. Como também não causam as notícias de “troca de tiros entre policiais e bandidos”, que matam outras pessoas, vítimas de balas perdidas. Isso acontece todos os dias.

O fator principal é o porte livre de armas pelos bandidos. Armas de todo tipo e tamanho.

A notícia do crime cometido contra os turistas italianos mostra que, às 11 horas da manhã de um dia comum, traficantes estavam armados, posicionados para proteger o território onde operam a venda de drogas.

Por tudo o que se sabe, é possível acreditar que, retirando-se as armas do crime, ele ficará enfraquecido o suficiente para ser dominado. Então, está evidente a necessidade de uma ação organizada e inteligente do Estado Brasileiro, que abrange as duas polícias, em especial a de investigação, o Ministério Público, o Poder Judiciário e o Legislativo, para tirar as armas das ruas.

Quando a gente examina o Estatuto do Desarmamento, concordando com ele ou não, fica sem entender as causas de ainda existirem armas nas mãos dos bandidos. A lei é de 22 de dezembro de 2003. Está em vigor, portanto, há 13 anos. Ela impõe uma série de providências de controle de armas, medidas suficientes para tornar incompreensível existirem armas nas mãos de bandidos. E não só armas de baixo calibre, mas fuzis etc.

O que falta para o Estado Brasileiro agir com firmeza no combate à posse de armas pelos bandidos?

Por que não rastreiam as armas, que são apreendidas, desde a origem delas na fabricação?  Seria uma providência essencial. O Estatuto do Desarmamento exige o cadastro. Então, com base nele, seria possível rastrear, para responsabilizar e punir quem facilita a posse de armas pelos bandidos.

Enquanto não se conhecer com exatidão a causa de existirem armas nas mãos de bandidos, armas, inclusive de uso restrito das Forças Armadas e das forças policiais, o combate ao crime no Rio será como tem sido até aqui: enxugar gelo.

Eis aí uma boa tarefa para os Ministérios da Defesa e de Justiça: agir logo e de forma eficaz no combate ao tráfico e comércio livre de armas para os bandidos.

Foto: Os primos Roberto Bardella e Rino Polato – Reprodução Facebook

 

Nota de esclarecimento

Nota de esclarecimento

Votei por não concordar que agentes públicos possam usar a autoridade acima de qualquer limite

Com justos motivos, a sociedade perdeu a paciência com os políticos. Eu mesmo me sinto mal com as circunstâncias. Mas o Brasil precisava passar por elas. Eu poderia ter seguido a profissão dos meus pais e irmãos, muito bem-sucedidos. Poderia também ter me dedicado, exclusivamente, à advocacia, onde tive boas experiências profissionais. Contudo, tenho a política como vocação e vejo o quanto a corrupção dilui a política.

Fui vereador três mandatos, subprefeito e secretário municipal no Rio de Janeiro. Estou no segundo mandato de deputado federal e poderia estar no terceiro, pois optei pelo risco de ficar sem mandato quando aceitei ser candidato a vice-presidente da República na chapa de José Serra, em 2010. Entrei na luta para evitar que o PT continuasse no governo. E, francamente, se tivéssemos vencido a Dilma naquela eleição, a história do Brasil seria outra.

Em 2014, voltei a me candidatar para a Câmara dos Deputados. Vi o que fez o PMDB no Rio e o risco imenso que a cidade corria se repetisse o modelo criado no governo do estado. Então, sai candidato a prefeito neste ano. Não venci, mas não fugi à responsabilidade de escolher, no segundo turno, o candidato que eu acredito seria melhor para a cidade.

Apoiei o impeachment e votei por ele. Quando o Ministério Público Federal apresentou ao Brasil as 10 Medidas Contra a Corrupção, eu endossei e, com receio do que poderia o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, fazer com elas, transformei-as em projetos de lei para cercá-las com a segurança de que seriam debatidas e votadas. Verifiquei que precisavam de alterações para não ferir as cláusulas pétreas. Não se poderia autorizar, por exemplo, o uso de provas ilegítimas nas investigações.

As matérias foram ao plenário e, por decisão do atual presidente da Câmara e dos líderes, como se faz normalmente, se fez a pauta de votações e ela transcorreu na madrugada. Votei-as com a minha consciência e os meus votos foram todos no sentido de aprovar as medidas, conforme está provado.

No conjunto, veio a proposta que reconhece e pune o abuso de autoridade dos membros do Ministério Público e do Judiciário. Votei porque não posso concordar que agentes públicos possam, livremente, usar a autoridade acima de qualquer limite. Não só com relação ao Congresso, mas com relação a todas as pessoas. E com um ponto importante a ressaltar: quem julgará os crimes de abuso dos membros do Ministério Público e do Judiciário será o próprio Judiciário instruído pelo Ministério Público.

Ao contrário do que dizem e tentam afirmar, eu não votei na madrugada para aproveitar que as atenções do Brasil estavam no acidente do avião dos jogadores da Chapecoense. E tenho certeza que não foi essa a intenção de muitos que votaram. Também não votei para me livrar da Justiça porque nada me coloca no caminho dela.

Tecnologia e informação no combate à violência

Tecnologia e informação no combate à violência

Uma rede de informações permanente pode ajudar a evitar barbáries que assolam o Rio de Janeiro

O confronto deste sábado entre policiais, bandidos e milicianos no Rio é o retrato do descontrole da segurança pública do governo do estado. A grave crise financeira – ao ponto de carros da polícia não saírem do pátio dos quartéis por falta de gasolina – estimula as ações de marginais. A queda do helicóptero que matou quatro militares, na Cidade de Deus (comunidade com UPP!), marca a disputa pelo controle daquela região. Sitiada, a população sofre as consequências desse descalabro.

Obviamente, a prefeitura não pode entrar na guerra contra o tráfico e a milícia. No entanto, tem a obrigação de contribuir com informações à polícia para as investigações e à Justiça. O objetivo é um só: pôr criminosos na cadeia e evitar a morte de inocentes. Durante toda a minha campanha a prefeito da cidade, eu já alertava e defendia a importância desta parceria.

Acredito na sensibilidade do prefeito eleito Marcelo Crivella no combate à violência. Tecnologia e a guarda municipal têm papel fundamental no processo. Afinal, somente a criação de uma rede de informações permanente pode ajudar a evitar barbáries que assolam o Rio de Janeiro. Apesar de necessário em determinados momentos, o confronto direto, com troca de tiros, é burro. Câmeras com reconhecimento facial, por exemplo, e uma gestão inteligente, podem ajudar e muito.

É triste ver policiais morrerem no exercício da função. Também é triste ver vítimas inocentes, trabalhadores honestos de comunidades carentes, chorarem por seus mortos. É triste sair de casa e não saber se vai voltar. Hoje, trafegar por vias expressas tornou-se um risco. Eu, você, os nossos filhos, ou qualquer um podemos ser alvos de arrastões, balas perdidas.

Não basta pôr apenas governantes corruptos na prisão. O Rio de Janeiro quer mais, quer paz. E o papel do estado e da prefeitura em trabalhar com parceria é a ponta de esperança de cariocas. Estamos todos no mesmo barco.

Foto:  Agência O Globo

A prefeitura deve assumir seu papel na Segurança

A prefeitura deve assumir seu papel na Segurança

Roberto Sá tem capacidade para fazer um bom trabalho se a prefeitura fizer a parte dela

Muita gente lamentou a saída do secretário estadual de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame. Eu também. Não só por ele ser um profissional dedicado e competente, mas porque a saída dele significa, na verdade, que a política de segurança do Estado ruiu. É verdade que não da forma como nas outras vezes. Beltrame deixa um legado importante: as UPPs e uma aula sobre as causas do insucesso.

Na última entrevista que deu como secretário, Beltrame confirmou a angústia, com certa dose de frustração. Disse ele: “Estou angustiado como servidor público. Afinal, angustia muito saber que você tem um problema. Você tem planos para enfrentar este problema. Você sabe elaborar e executar esses planos, mas não pode executar”.

Em seguida, Beltrame identifica as dificuldades: “Falta entrelaçamento entre as diversas instâncias do poder. As polícias Militar e Civil tocam sozinhas quando a questão da segurança não é só das polícias ou da falta de apoio social. A desordem pública cria a violência. É a ocupação desordenada do solo e o crescimento totalmente desordenado das comunidades”.

Faltou à prefeitura do Rio fazer a parte dela. Por isso, tenho defendido um papel de maior participação dela na área de segurança. Quando fui secretário municipal de Esportes, criei um programa de incentivo ao esporte para as áreas de atuação das UPPs. Não consegui implantar, porque o prefeito Eduardo Paes – me respondeu ele – “não queria colocar azeitona na empada do Beltrame”.

O substituto do Beltrame, escolhido por ele, o delegado da Polícia Federal, Roberto Sá, tem capacidade para fazer um bom trabalho se a prefeitura dessa vez fizer a parte dela. A prefeitura deve agir com mais eficácia na manutenção da ordem pública, no treinamento da Guarda Municipal para o policiamento ostensivo e integração com a Polícia Civil para disponibilizar os dados e informações que consegue coletar e que possam ser úteis na investigação dos crimes.

Apresentei este projeto na campanha e entreguei ao candidato Marcelo Crivella.
O programa que defendi para a Segurança Pública está no meu site. Ele nasceu de uma série de depoimentos de especialistas, coordenados pelo Leandro Piquet. O ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, deu também uma significativa contribuição. Ele enfrentou em Nova York, com sucesso, os crimes urbanos, bem semelhantes aos que ocorrem no Rio hoje.

Confira a matéria sobre a troca de secretário de Segurança do Rio no Jornal O Globo, de hoje:  http://zip.net/bmtvkH.

Foto: Jornal O Globo 17/10/2016